Entre Linhas e Memórias: O Renascimento da Encadernação Manual em Portugal

Num mundo cada vez mais digital, estamos a assistir a fenómenos nas redes sociais que recuperam o trabalho manual e artesanal. Um desses fenómenos é a encadernação (bookbinding), que passou de uma “oficina poeirenta” para um estúdio de design moderno e estético.
Será que os nossos livros e cadernos vão voltar ao papel costurado, aos acabamentos perfeitos e às capas personalizadas?
O Berço da Encadernação em Portugal
Acredita-se que o papel tenha surgido na Europa entre os séculos X e XI, mas foi na Idade Média que os rolos de pergaminho deram lugar ao Códex: folhas dobradas e unidas de um lado por furos na margem. Estas folhas eram cosidas com atilhos de cabedal, chamados “nervos”, e protegidas por tábuas de madeira para que o tempo não as deformasse.
Os frades foram os primeiros mestres desta arte, protegendo textos religiosos com fechos metálicos e peles de vitela ou cabra. Era uma arte que vivia à sombra do poder real e da Igreja, os únicos que podiam suportar o custo de um manuscrito.
Com a invenção da imprensa e o surgimento do papel, a encadernação evoluiu para a proteção e o embelezamento. Embora existam debates sobre o primeiro livro impresso em Portugal (o Sacramental de 1488 ou o Tratado de Confissom de 1489), ambos partilhavam o mesmo destino: serem vestidos com seda, veludo ou ouro, tornando-se símbolos de estatuto para a nobreza e burguesia.
Os livros mais caros e raros passaram a ser protegidos com complicadas encadernações decoradas com seda, veludo, prata cinzelada e marfim esculpido. A encadernação atingiu assim o seu auge no século XV com as decorações a ouro e no século XVI aparece o motivo dourado, pelo processo da interposição de uma folha de ouro muito fina entre o couro e o ferro gravado.
Os livros que eram um privilégio da igreja e da nobreza, passaram a ser vendidos em “cadernos” soltos e o comprador levava-os ao seu encadernador de confiança para lhes dar uma capa personalizada, muitas vezes com o brasão da família.
Com a ascensão da burguesia na Era dos Descobrimentos, a procura por livros aumentou e a profissão de encadernador começou a expandir-se para satisfazer a procura dos burgueses.
Do Clássico ao Contemporâneo
No século XIX, surgiu a industrialização da encadernação em caixa e as primeiras capas ilustradas. As capas de cartão substituíram as capas de madeira, tornando a encadernação mais leve e os livros passaram a ser cosidos, enfiando os fios em ranhuras feitas na lombada com um serrote manual especial.
A pele, o linho ou o cartão deixaram de ser colados diretamente sobre a lombada dos cadernos, passando a ser aplicados sobre uma tela ou cartão, tornando a lombada mais maleável o que auxiliava na abertura dos livros.
Os materiais mais usados para proteger os livros, eram o veludo, seda, cetim, brocado, linho, lona e tecido de livro com goma. Para se coserem as páginas dos livros, utilizava-se o linho e a seda e o cordão de linho ou de cânhamo para dar consistência à costura. A colagem dos livros fazia-se com grude, cola branca, cola de amido.
Em 1933, Matias Lima publicou o livro “A Encadernação em Portugal” sobre encadernações portuguesas, que é ainda hoje uma obra de referência na bibliografia da especialidade. O mesmo autor, publica em 1956 “Os Encadernadores Portugueses”, uma espécie de dicionário, onde são referenciados cerca de 300 encadernadores portugueses antigos e modernos, reproduzindo 130 modelos de excelentes encadernações, além de numerosas marcas de artistas.
Estas publicações levam-nos a concluir que no início do século XX a arte de encadernar era uma profissão ainda exercida por muitos, no entanto com o passar dos anos, esta geração de encadernadores foi perdendo clientes e consequentemente os seus artesãos.
Hoje, figuras como Jacinto Silva e Carlos Guerreiro mantêm as portas abertas, resistindo à reforma por amor ao ofício.
Jacinto Silva diz que há muitos clientes que lhe pedem para não desistir, mas afirma que mantém o negócio apenas para evitar a desocupação que a reforma lhe traria. Sobre a “extinção” da profissão, o artesão diz que as principais razões são a falta de interesse dos jovens em enveredar pelo ofício e a falta de oferta de formações e cursos.
Carlos Guerreiro tem uma opinião diferente e diz que há imensas pessoas e jovens a querer trabalhar na profissão, no entanto concorda com Jacinto relativamente à falta de oferta em meios para se formar os interessados. O artesão reconhece o esforço dos workshops, mas garante que são em vão, pois a profissão de artesão exige pelo menos três anos de aprendizagem para se fazer as coisas básicas.
A Queda e a Fénix (O Renascer da Profissão de Encadernador)
A industrialização e as capas moles, quase ditaram a queda do ofício manual, mas a encadernação está a dar sinais que pretende renascer das cinzas, não como uma necessidade de produção em massa, mas como um objeto de luxo, personalização e saúde mental.
Há um despertar para a arte de encadernar, não só pela componente visual que se tornou mais moderna e atrativa, mas também como forma de obter algo único e personalizado.
O som rítmico da dobradeira a vincar o papel ou o deslizar da agulha através das folhas tornou-se o novo ASMR do mundo literário. Os detalhes da arte de encadernar são filmados ao pormenor! As cores são apelativas, os sons das folhas de papel e do corte dos materiais são ampliados, dando uma sensação de relaxamento a quem assiste à criação de algo novo.
O interesse pela arte de encadernar cresceu nas redes sociais e o que era um passatempo para alguns, particularmente durante a pandemia, acabou por se tornar um negócio lucrativo.
O Papel das Redes Sociais
O acesso a tutoriais no YouTube e cursos online democratizou uma técnica que antes era guardada a sete chaves pelos mestres. Recuperou-se a técnica de marmorizar o papel, os materiais utilizados passaram a ser tecidos de algodão, papéis sustentáveis/reciclados, cortiça, colas vinílicas neutras (pH neutro) e fios de linho encerados coloridos.
Se a encadernação é o corpo do livro, o papel marmoreado é, sem dúvida, a sua impressão digital. Esta técnica milenar, que consiste em flutuar pigmentos de tinta sobre uma solução viscosa (tradicionalmente feita com algas ou gomas naturais) para depois ‘pentear’ as cores em padrões únicos, vive hoje um novo fôlego.
Antigamente, estas folhas eram usadas como guardas para esconder as colagens das capas de couro, sendo um segredo guardado a sete chaves pelos mestres papeleiros. Hoje, a técnica tornou-se viral: os vídeos de artesãos a mergulhar delicadamente o papel na água, retirando-o segundos depois com um padrão vibrante e irrepetível, acumulam milhões de visualizações. É a prova de que o fascínio pelo ‘feito à mão’ reside na beleza da imperfeição e no facto de que, tal como um livro antigo, não existem duas folhas marmoreadas exatamente iguais
Os grupos de “Journaling”, partilharam vídeos em redes sociais como o Facebook e Instagram, o que despertou o interesse das pessoas para adquirirem algo exclusivo e mais autêntico ou para fazerem os seus próprios cadernos e capas de livros.
Projetos como os Cadernos de Musgo, Estúdio Bulhufas e Casa d’Amendoeira e Alfaiate do Livro provam que a nova geração respeita o passado, mas fala a língua do presente, unindo a técnica antiga a uma estética ecológica e moderna.
Partilha a tua história! Se conheces alguém que esteja a recuperar esta profissão ou se te tornaste um artesão da encadernação, partilha o nome e os contatos nos comentários. Vamos ajudar a manter viva esta tradição.
Fontes e leituras recomendadas:
arquivos.rtp.pt | livrariaferreira.pt/livro1 | livrariaferreira.pt/livro2 | www.cm-evora.pt | repositorio-aberto.up.pt | arteria.publico.pt
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