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A Mulher que não sabia ler e escrever

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A Mulher que não sabia ler e escrever

Há gestos que nos sensibilizam e marcam, primeiro pela surpresa, depois pelo misto de emoções que nos invade.

Eu vivi um desses momentos há poucos dias, quando uma senhora me abordou para lhe ler uma lista de compras. Era um pequeno papel com alguns produtos para comprar no supermercado, mas ela não sabia o que estava escrito. Ajudei-a a identificar os produtos, ela agradeceu e foi embora sorridente.

A simplicidade daquela senhora comoveu-me. E a forma natural como pediu ajuda também. Fiquei ali uns momentos, com a imagem daquele papel na cabeça, a pensar em quantas vidas foram vividas assim com dignidade, apesar de tudo o que lhes faltou.

Isso fez-me recordar histórias que ouvi ao longo dos anos, de pessoas que me falavam de uma infância a trabalhar, em que a escola era colocada em segundo plano porque era preciso pôr comida em casa. Talvez tu que estás a ler este artigo tenhas na tua família uma história idêntica, um avô ou uma avó que não puderam estudar, que não puderam escolher.

E eu pergunto: quantas crianças não puderam brincar, não puderam aprender, não puderam sonhar? Tantas que nem imaginamos.

Quanto conhecimento de vida se perdeu porque não existiu quem o escrevesse? O saber passava de geração em geração – a mãe ensinava as filhas, o pai ensinava os filhos – mas algo ficava sempre pelo caminho. A família reunia-se ao jantar ou à volta da fogueira, e aí se contavam histórias. Os vizinhos eram família, e também eles ajudavam a educar os filhos. Não havia conhecimento escrito, mas havia presença. Havia união.

As novas gerações têm o privilégio de aprender a ler e a escrever. O conhecimento hoje está nos livros, na Internet, nas escolas. Nunca se aprendeu tanto e tão facilmente.

Mas será que não estamos a perder outro conhecimento? O da experiência vivida. O da união da família. O da solidariedade entre vizinhos. O de olhar para o outro e perguntar, simplesmente: posso ajudar?

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