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Viagem no tempo pela arte: como as obras de arte “guardam” a história e a alma dos seus criadores

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Viagem no tempo pela arte: como as obras de arte “guardam” a história e a alma dos seus criadores

Já alguma vez imaginaste o que aconteceria se pudéssemos falar com o artista dentro da obra? Imagina que estás numa visita a um museu ou galeria de arte e te é permitido conversar com o artista dentro da obra, saberes o que o inspira e que emoções está a viver. Talvez a interpretação que tens de uma determinada obra de arte mudasse.

É certo que o mistério que envolve as obras de arte é o que as faz tão icónicas, a sua subjetividade e a possibilidade de termos várias interpretações quando as observamos, faz parte do fascínio que temos pela arte, mas compreender o artista que as criou poderia dar-nos uma nova perspectiva.

Sempre que observamos uma obra de arte, de alguma forma criamos uma ligação com o seu criador, principalmente se a obra nos transmite algum tipo de emoção. É como se a história e alma do criador da obra permanecesse no tempo apesar de o seu corpo físico poder já não estar entre nós.

Qualquer expressão artística, seja pintura, escultura, música ou até escrita, que tenha sobrevivido ao passar do tempo, consegue nos dias de hoje transmitir uma mensagem. Pode descrever-nos o pensamento de uma época, como vivia a sociedade de então e as suas crenças religiosas e políticas, entre muitas outras observações que podemos fazer.

A MÍSTICA DA CRIAÇÃO 

A arte torna-se uma viagem que fazemos no tempo e que congela determinado momento que o artista usou para se expressar no passado, o que faz com que a inspiração de alguns artistas para as suas obras ainda permaneça um mistério até aos dias de hoje.

Podemos pensar em várias obras e os seus criadores, mas falemos de algumas mais populares entre o público. Imagina como seria estar ao lado de Michelangelo e poderes falar com ele sobre qual a sua inspiração para pintar “O Juízo Final” na Capela Cistina. As imagens que ele criou, parecem vir de “outro lugar”, como se ele tivesse tido alguma experiência “espiritual” para as criar. Será que foi a leitura da Bíblia? Uma conversa com algum religioso? Ou será que foi algo mais?

E se pudesses estar ao lado de Da Vinci, quando ele pintou a “Última Ceia”, uma obra que hoje se aprofunda o seu significado por se considerar que tem várias mensagens ocultas e pouco percetíveis para quem a observa. Será que também Da Vinci se inspirou na Bíblia ou em algo mais?

Podemos também lembrar Sofonisba Anguissola, a primeira mulher pintora que se tornou “famosa” pelos seus retratos. Como foi ser a primeira mulher pintora, respeitada pelas cortes e pelo seu trabalho? Porque é que Michelangelo admirava tanto o seu talento? Talvez ela tivesse histórias interessantes para nos contar e explicar como conseguia captar tão bem a essência das pessoas que retratava.

Camille Claudel, foi uma escultora pioneira na sua época, ao misturar materiais como bronze e mármore ónix nas suas esculturas. “A Valsa”, uma das suas esculturas mais conhecidas, foi muito censurada na época por apresentar um homem e uma mulher a dançarem com os seus corpos nus. O que será que a levou a desafiar o mundo artístico? O que a inspirou a experimentar novos materiais?

“O Pensador”, uma das obras mais conhecida de Auguste Rodin, era a escultura central da “Porta do Inferno” que ao ser tão admirada, ganhou uma escultura independente da obra. Esta escultura, simboliza Dante a observar a sua obra “Divina Comédia”, mas será que podemos encontrar mais alguma interpretação? Será que Rodin nos tentou transmitir algo mais através do pensador?

William Shakespeare, é considerado o maior escritor de língua inglesa e a história de “Romeu e Julieta”, é uma das obras mais conhecidas de todos nós. São várias as teorias sobre o que o inspirou ao escrever esta história, desde um poema de Arthur Brooke (A História Trágica de Romeu e Julieta), até uma novela italiana de Luigi da Porto (História de Dois Nobres Amantes). Mas como será que através da leitura de um poema ou novela, ele conseguiu criar uma obra tão bem sucedida que sobreviveu ao passar do tempo? Como é que ele criou as restantes personagens e o que o inspirou?

Por último, falemos de Fernando Pessoa que ao criar várias personalidades literárias, foi considerado por uns um “Génio” e por outros um “Louco”. A “Mensagem” foi a sua única obra completa publicada em vida e que deixou ao povo português palavras encorajadoras e até proféticas, quando nos fala da possibilidade de um futuro glorioso com o “Quinto Império”. Os seus conhecimentos de astrologia, a sua amizade com Aleister Crowley e a sua admiração por Helena Blavatsky, levam-nos a considerar a importância que Fernando Pessoa dava ao oculto e ao misticismo. A riqueza da sua obra, daria com certeza uma conversa muito interessante com o autor sobre o que o inspirou na sua escrita.

De alguma forma, todos os artistas parecem permitir-se estar num estado de alma “alterado” e assim captarem algo que não é visível aos nossos olhos e que está expresso na sua arte. Quando ainda hoje perguntamos a um artista o que o inspirou, obtemos muitas vezes a resposta: “não sei muito bem, acho que foi uma ideia que surgiu!”

Talvez, mais do que qualquer técnica que possam ter utilizado na criação da sua obra, o dom dos artistas seja a capacidade de captar e transmitir emoções, o que permite que as suas obras sobrevivam ao tempo e sejam ainda hoje tão admiradas.

A BATALHA FINANCEIRA E O PRECONCEITO

Sabemos no entanto, que muitos artistas só viram o seu trabalho reconhecido após a sua morte e que muitos terminaram os seus dias em extrema pobreza, apesar das suas obras hoje valerem milhões. Quem não conseguia o estatuto de ser artista das classes sociais privilegiadas, tinha muito dificuldade em sobreviver. Temos que analisar as épocas em que viveram esses artistas pois, hoje sabemos que muitos só conseguiram reconhecimento porque trabalharam para a igreja, para a nobreza ou para a burguesia.

Isto criou uma espécie de mito urbano que considera que quem escolhe a vida artística será pobre e nunca conseguirá pagar as suas contas, e que os artistas são uns vagabundos que não querem trabalhar! Será que este mito ainda faz sentido existir? Ou será que não passa de uma ideia preconceituosa?

A arte sempre teve os seus admiradores e os que a criticavam. São várias as histórias de grandes artistas que foram criticados no início das suas carreiras e que hoje são profundamente admirados. Jornalistas e críticos, são muitas vezes destrutivos nas suas opiniões, mas o público sabe reconhecer o valor dos artistas e a sua opinião fala sempre mais alto.

Hoje em dia, a arte não é um privilégio dos mais ricos e está mais acessível a todos, através das infinitas possibilidades de expressão artística que existem no mercado. Primeiro a televisão e depois a Internet, ajudaram muito na divulgação do trabalho artístico e isto provocou uma expansão de profissões ligadas a este meio. A criatividade do ser humano é a sua maior riqueza e o surgimento das redes sociais e outras plataformas, permitem aos artistas divulgar o seu trabalho e obter rendimentos.

O que é certo é que nunca existiram tantos cursos e formações relacionados com a arte, e são cada vez mais aqueles que optam por seguir uma carreira artística e contrariar a opinião daqueles que consideram que a arte não dá dinheiro.

É um caminho fácil? Talvez não! Mas como em todas as profissões, existem dificuldades e pedras no caminho. Há que persistir, não desistir da vocação e deixar que o dom artístico se manifeste livremente.

RAÍZES E IDENTIDADE

Um artista, entrega sempre à sua obra uma parte de si! Uma parte da sua história de vida, da sua identidade e das suas raízes. Por isto ouvimos tantas vezes falar da dificuldade que alguns artistas têm de comercializar a sua obra, porque eles sentem que ao fazê-lo perdem um pouco da sua identidade.

O ego e a expetativa em relação à apreciação da obra por parte do público, é algo também com fronteiras muito ténues para um artista. Há que encarar que a escolha da vida artística como profissão, é uma forma de expressão para o público, uma forma de partilhar algo pessoal que nem todos vão entender ou apreciar.

A identidade do artista surge da sua genuinidade e é ela que vai captar a atenção das pessoas que sentem “sintonia” com a pessoa e o seu trabalho. Não importa se a primeira exposição numa galeria de arte não foi bem sucedida, não importa se as lojas online ainda não são lucrativas, não importa se ainda não vendes as tuas músicas ou os teus livros. O teu público vai-te encontrar, só tens que persistir e ser autêntico.

Deixa que as tuas raízes geográficas, culturais, religiosas e familiares, transpareçam através da tua arte. Deixa que as tuas emoções (traumas, tristezas, alegrias) e a tua história pessoal fluam através do teu trabalho. Não tentes esconder o que és, pois tudo isto faz parte da tua identidade única e é a fonte da tua força criativa e do teu dom artístico.

No meu livro “O Retrato de Júlia”, um livro de ficção que questiona: “E se fosse possível viajar no tempo através da arte”, eu abordo todas as temáticas deste artigo, mas a mais importante é como as raízes familiares de Júlia são tão importantes no seu dom artístico.

Ela nasceu no Porto, mas foi viver para Londres com cinco anos. Quando chega o momento de escolher uma faculdade para estudar escultura, ela decide regressar à cidade onde nasceu. Aí ela vai descobrir as raízes das famílias paterna e materna, e descobrir qual o seu dom.

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