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As Herdeiras da Caneta: O Eco das Nossas Avós nas Estantes de Hoje

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As Herdeiras da Caneta: O Eco das Nossas Avós nas Estantes de Hoje

Mais de 100 anos passaram desde que as mulheres começaram a fazer passeatas pelas ruas, reivindicando melhores condições de vida e de trabalho. Foram precisos 65 anos para que as primeiras mulheres que tiveram a coragem de se manifestar ganhassem voz e tivessem um dia para lembrar as suas causas.

Em 1975, as Nações Unidas instituíram o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher, com o intuito de lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres. Apesar de muitos avanços, nenhuma nação conseguiu ainda eliminar totalmente as disparidades entre homens e mulheres; por isso, a luta que as mulheres do passado iniciaram continua viva através da voz das suas descendentes e só terá fim quando pudermos falar de uma igualdade plena na sociedade em que vivemos.

As nossas avós conquistaram direitos fundamentais, como ir à escola para aprender a escrever, sair de casa para trabalhar e conquistar a sua independência económica. No entanto, embora as conquistas sociais tenham devolvido às mulheres o direito à educação, as prateleiras dos livros mais vendidos (seja em Portugal ou no mundo) ainda refletem um passado de exclusão.

No tempo das nossas avós…

As nossas avós começaram por escrever pequenos contos em jornais locais, muitas vezes por uma questão de subsistência financeira; algumas autopublicaram os seus livros com recursos próprios. Foram poucas as autoras do passado que conseguiram fazer carreira na escrita, mas as que o fizeram são hoje um exemplo para as novas gerações.

Agatha Christie é uma das poucas escritoras com o nome nos rankings de livros mais vendidos de sempre, mas sabias que a mãe não queria que ela aprendesse a ler antes dos oito anos e que o seu primeiro livro, “O Misterioso Caso de Styles”, foi recusado por várias editoras?

Astrid Lindgren, a autora da famosa “Pipi das Meias Altas”, começou por escrever textos para revistas e só mais tarde, quando um tornozelo partido a manteve acamada, decidiu escrever o seu primeiro livro. Sabias que o manuscrito foi recusado pela maior editora da Suécia, por considerarem o conteúdo controverso e temerem uma má influência sobre as crianças?

Jane Austen começou a escrever o romance “Elinor e Marianne” em 1795, mas, após uma revisão significativa, deu-lhe o título “Sensibilidade e Bom Senso”. Este livro tornou-se um clássico adaptado ao cinema, teatro e televisão, mas sabias que a primeira publicação, em 1811, teve de ser paga do próprio bolso da autora?

Louisa May Alcott, autora de “Mulherzinhas”, começou a escrever para ajudar a pagar as contas da família, que vivia com dificuldades financeiras. Sabias que esta obra é, na verdade, uma ficção inspirada na própria vida da autora?

Em Portugal, nomes como Agustina Bessa-Luís, Florbela Espanca, Sophia de Mello Breyner Andresen e Natália Correia são familiares a todos. Mas sabias que Florbela Espanca não foi bem recebida pelos círculos literários da época porque ousava explorar a sensualidade? E que Natália Correia foi condenada a prisão com pena suspensa, em 1966, devido à publicação da “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”?

A Geração das netas

Cabe agora às netas recordar a luta das avós e continuar a afirmar a importância de uma sociedade onde todos os seres humanos tenham igualdade de direitos e oportunidades.

Em Portugal, o Projeto “Mulheres Escritoras”, deu voz a escritoras de língua portuguesa no tempo da Ditadura Militar e do Estado Novo em Portugal, África, Ásia e países de emigração.

O objetivo é “integrar no património literário a escrita realizada por mulheres, promovendo o conhecimento, a desocultação e a difusão de escritoras que publicaram entre 1926 e 1974, assim como das suas obras, uma vez que, mesmo no que diz respeito ao século XX, o cânone da literatura portuguesa é essencialmente masculino. O contexto social, cultural e político em que emergiu muita da produção destas mulheres aponta para a escrita como um ato de coragem, nalguns casos punido com silenciamento, perseguição ou apagamento.”

Um manifesto de existência

Escrever nunca foi, para a mulher, apenas um exercício de estilo; foi, e continua a ser, um manifesto de existência. Durante séculos, a voz feminina habitou as margens ou o silêncio imposto por uma cultura que reservava o pensamento ao universo masculino.

Hoje, ao celebrarmos o Dia Internacional da Mulher, não olhamos apenas para uma data no calendário, mas para o eco de todas as que pediram licença para que a sua evolução pessoal se manifestasse no papel. “Escrever no feminino” não é apenas escrever sobre romance; é escrever sobre a experiência humana através de olhos que foram, por muito tempo, obrigados a ver sem serem vistos.

Ler uma mulher é escolher ver o mundo através de olhos que aprenderam a ler o silêncio antes de poderem ditar o seu próprio ritmo. É votar na continuidade da sua voz e garantir que a próxima geração de raparigas encontre o seu Ser refletido nas estantes.

Alguma autora já mudou a tua forma de ver o mundo através de um livro?

Fontes de Informação: www.un.org | www.clubedasmulheresescritoras.com | mulheresescritoras.pt

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