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Sereias em Portugal: Lendas Reais, Simbolismo e a ligação oculta com a Era dos Descobrimentos

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Sereias em Portugal: Lendas Reais, Simbolismo e a ligação oculta com a Era dos Descobrimentos

Desde que conhecemos Portugal como nação independente, que existem vários registos históricos de expedições marítimas. Nunca saberemos ao certo quantas caravelas, naus e outras embarcações partiram da costa portuguesa em direção a um mar imenso à descoberta do desconhecido, mas podemos presumir que foram vários milhares ao longo dos séculos.

Uns partiram em busca de riqueza e de fazer boas transações comerciais noutros territórios, outros partiram com o intuito de divulgar a fé cristã, outros eram criminosos fugitivos, outros guerreiros que partiam com intuito de conquistar novos territórios. Temos também os que partiam para pescar e que ficavam um longo tempo no mar com o intuito de fazer grandes pescarias e vender a mercadoria à população em terra.

Portugal sempre viu os seus homens partir e sempre assistiu às mulheres que ficavam em terra, deslocarem-se até às praias portuguesas na esperança de ver pais, maridos, irmãos, filhos e familiares regressarem.

Fernando Pessoa, imortalizou estas mulheres e as suas lágrimas enquanto esperavam pelos entes queridos, quando disse: “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!

Elas estão também imortalizadas no Monumento aos Descobrimentos Portugueses, conhecido como “A Sereia” de Cascais, em que podemos ver uma mulher olhando o horizonte, envolta numa vela semelhante à das caravelas de então, levando uma grossa e resistente corda, cuja ponta ficava em Portugal e com a outra ia prendendo as novas terras descobertas.

Segundo o autor da escultura, João de Sousa Araújo, a obra homenageia a “Mãe, Esposa ou Filha e que enaltecendo a sua compreensão e capacidade de sofrimento por verem partir os seus homens para um mar infinito, ficando-lhes apenas a esperança num regresso, nem sempre concretizável”.

Foram muitos os que nunca mais voltaram, mas os que regressaram, tinham histórias e lendas para contar sobre monstros marinhos que tiveram que enfrentar, redemoinhos que engoliam embarcações ou ventos que as levavam pelo ar, e não poderia faltar o famoso Adamastor, imortalizado por Luís de Camões nos Lusíadas. As sereias também faziam parte destas lendas e eram vistas como “encantadoras” de homens, que quando as viam se pasmavam com a sua beleza e ficavam enfeitiçados pelo seu canto.

As histórias e lendas sobre sereias estão tão enraizadas na nossa cultura, que estão representadas em vários monumentos, estátuas e azulejos por todo o país, como por exemplo: Na Rosa dos Ventos que ornamenta o terreiro de acesso ao Padrão dos Descobrimentos é possível ver uma sereia entre os elementos que a compõe; Em Tondela temos a fonte da Sereia ou Chafariz da Sereia; Em Vila do Conde a estátua de bronze da sereia que está localizada na margem do Rio Ave; A Praça do Rossio em Lisboa, tem duas grandes fontes, cada uma com quatro estátuas de sereias.

O CHOQUE ENTRE O MITO E A REALIDADE

Algumas teorias dizem, que devido ao longo tempo no mar, os homens tinham alucinações e viam o peixe-boi e o dugongo como mulheres. Além disso, o famoso canto das sereias, também poderia ter sido confundido com as vocalizações dos golfinhos e baleias.

De alguma forma estas crenças podem ter influenciado as histórias contadas pelos navegadores, mas se há quem acredite que eles tiveram alucinações, há quem acredite que poderá ser verdade que as sereias existem.

As lendas das mouras encantadas, são famosas em Portugal e contam histórias de mulheres e princesas, que vivem junto às fontes, rios e nascentes. Elas são conhecidas pela sua beleza e longos cabelos, que penteiam frequentemente, uma imagem muito semelhante à qual associamos as sereias. Algumas possuem poderes sobrenaturais, outras guardam tesouros deixados pelos maridos ou sofreram algum encantamento.

Se nas lendas estas mulheres eram temidas e respeitadas, na vida real a situação era bem diferente. Na época dos descobrimentos surgiu a Inquisição, como forma de perseguição aos hereges que não praticavam a fé católica, mas rapidamente se tornou também uma “caça às bruxas”.

Com a partida dos homens para o mar, muitas mulheres tornaram-se comerciantes e trabalhadoras para poderem sustentar as famílias, assistindo-se a uma ascensão social da mulher que nem sempre era bem vista pela comunidade onde viviam.

Algumas destas mulheres eram vistas com inveja e desconfiança, e começaram a ser apelidadas de “bruxas” por terem comportamentos que atentavam contra à fé católica, acabando por ser condenadas à fogueira através de denúncias anónimas.

Há uns tempos li uma teoria que defendia que algumas dessas mulheres especializaram-se na produção e venda de cerveja. Os homens que a bebiam ficavam embriagados, desmaiavam ou morriam em coma alcoólico e começou a comentar-se que a cerveja tinha magia feita pelas mulheres que a produziam. Uma história inventada para desculpar os atos “pecaminosos” dos homens que se embriagavam.

As mulheres que seguiram nas naus e caravelas, segundo refere a historiadora Maria de Deus Beites Manso no seu livro “Mulheres a Bordo!”, eram “tanto europeias, como africanas, americanas e asiáticas, ocupando posições numa escala hierárquica que ia de escravizadas a senhoras honradas, viajando por vontade própria ou forçadas”.

A única mulher que se destacou, foi Isabel Barreto, a primeira e única a comandar uma frota na era dos Descobrimentos. Nascida na Galiza e filha de pai português, Isabel embarcou numa expedição às Ilhas Salomão liderada pelo seu marido. Ele viria a falecer durante a viagem e Isabel assumiu o comando da nau “San Gerónimo”. Uma viagem que segundo os relatos ficou marcada por várias dificuldades entre as quais a falta de comida e na qual, Isabel demonstrou uma determinação e capacidade de liderança que ainda hoje é admirável.

A REENCARNAÇÃO DE SEREIAS E BRUXAS NA CULTURA POP

Muitos séculos se passaram e as sereias, que antes eram temidas, são agora um dos seres mais queridos da cultura pop. São inúmeras as histórias para crianças que têm como personagem principal uma sereia, como é o caso de Ariel que ficou famosa no filme da Disney “A Pequena Sereia”. Outras sereias que ficaram bem conhecidas do público foram Madison do filme Splash, Aquamarine do filme A Sereia Apaixonada e as sereias da série H2O: Meninas Sereias.

As sereias atuais são uma espécie de “reencarnação” das sereias dos contos e lendas, mas com histórias adaptadas à nossa realidade e à cultura popular dos nossos dias. Elas já não vivem só no mar alto a aterrorizar ou encantar os navegadores, mas vivem perto das cidades com proximidade aos humanos e algumas delas vivem entre nós. Elas já não são seres a temer, mas seres queridos por todos.

As “bruxas” que no passado eram maléficas e condenadas à fogueira, são agora vistas pela cultura pop, como seres que podem ajudar os humanos. Exemplo disso são: Willow a melhor amiga de Buffy a caça vampiros, Sabrina a bruxinha adolescente, Sally e Gillian Owens do filme Magia e Sedução ou Hermione Granger de Harry Potter.

Talvez estas histórias sejam também um espelho que reflete a mulher do passado e do presente. A mulher que no passado era relegada para segundo plano, que não podia ser independente, que era subserviente das crenças religiosas mais radicais, no presente já não precisa de se esconder e pode dar-se a conhecer sem receio.

O espírito das sereias e das bruxas, está presente numa espécie de união entre mulheres, em que elas demonstram que se forem resilientes e unidas podem criar uma sociedade diferente e mais justa.

QUANDO O PASSADO SE REPETE

Só que este empoderamento feminino, mais uma vez, assusta a sociedade e movimentos misóginos voltam a surgir. A mulher é vista como um ser sem vontade própria que tem que se sujeitar à vontade dos homens da família.

Evolui-se em tantas áreas da nossa sociedade, mas ainda somos capazes de “alimentar” pensamentos e crenças que foram criados há séculos como forma de controlar as populações pelo medo.

A perseguição às “sereias e bruxas” do passado repete-se, apesar de tantos séculos de evolução, pois existem crenças culturais e religiosas que ainda permanecem enraizadas no ser humano e nos seus meios.

A religião ainda condiciona muito as crenças das pessoas e infelizmente, na sua fé cega, recusam-se a ver que nos ensinamentos originais dos seus “deuses”, a mulher era respeitada e vista como ser igual ao homem.

As mulheres estão mais atentas e aquelas que se conseguiram libertar deste sistema de crenças, estão a lutar para alertar outras mulheres de que elas merecem ser respeitadas e têm direito à liberdade de se expressarem sem medo dos julgamentos da sociedade.

No meu livro “O Grito de Kyra”, inspirei-me nas lendas que relatam as visões dos navegadores portugueses na Era dos Descobrimentos. Imaginei que as sereias, capturadas e levadas como “prémio” para as cortes, merecem uma nova oportunidade. Através da reencarnação, navegadores e sereias reencontram-se no nosso século. Se acreditas no poder das ações passadas e na união feminina para corrigir erros, vais gostar de ler este livro.

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