Porto,PT
lauraguimaraesautora@gmail.com

O Palco Perdido: Urgência e Oportunidade para as Feiras de Autores Independentes em Portugal

autora - writer

Created with Sketch.

O Palco Perdido: Urgência e Oportunidade para as Feiras de Autores Independentes em Portugal

Todos os dias, autores independentes pegam na caneta e pela primeira vez, também nas rédeas do seu próprio destino editorial. Com as novas tecnologias, a publicação de um livro deixou de ser um sonho distante, para se tornar uma realidade acessível.

Estamos a assistir a uma explosão de criatividade, com milhares de novas vozes a enriquecer o panorama literário nacional e internacional, explorando nichos e géneros que o mercado tradicional nem sempre consegue acolher.

Mas este crescimento vertiginoso esbarra numa barreira: o palco!

Enquanto países como os Estados Unidos e o Reino Unido assistem ao florescimento de grandes feiras e eventos dedicados exclusivamente ao livro independente, em Portugal, a comunidade de autores “self-published” sente-se órfã. Temos exceções louváveis, claro, mas são insuficientes para a dimensão do movimento.

Este artigo não é apenas uma constatação, é um apelo urgente à ação. Vamos explorar o poder desta nova vaga de autores, analisar o sucesso dos eventos internacionais e acima de tudo, demonstrar as vantagens culturais e económicas de criar um circuito robusto de feiras dedicadas ao livro independente em Portugal.

É tempo de dar aos nossos autores o espaço que merecem e aos nossos leitores a oportunidade de descobrirem os talentos que se escondem para lá das estantes mais visíveis.

O Crescimento Exponencial do Mercado Independente

O mercado de livros publicados por autores independentes tem apresentado um aumento exponencial a nível global. Ainda que não exista um estudo global que o confirme, os indicadores que surgem nos relatórios de alguns países, constatam que este é um mercado em franco crescimento.

Enquanto o mercado editorial global tem previsão de crescimento de 1%, o mercado de autopublicação deve crescer 17% ao ano, e com um mercado de livros autopublicados avaliado em US$ 1,25 bilião por ano, a mudança é inevitável.

Nos EUA, Canadá e Reino Unido, o número de ISBNs autopublicados emitidos (incluindo livros impressos, e-books e audiolivros), ultrapassou um milhão pela primeira vez em 2017 e teve um pico enorme em 2019. Em 2022 e 2023, o número de pedidos de ISBNs de autopublicação ultrapassou o das editoras tradicionais.

Em Portugal, os dados relativos à venda de livros não contemplam esta separação dos livros publicados, através da chamada dita “publicação tradicional”, dos autopublicados. O que nos pode levar a concluir, que quando são revelados os números de livros adquiridos pelos portugueses, estes poderão não corresponder à realidade e serem superiores ao que dizem os indicadores oficiais.

Este aumento da procura e venda de livros autopublicados, tem sido impulsionado pelo surgimento da Amazon / Kindle, Apple iBookstore e Barnes and Noble, que permitiram a publicação de eBooks e livros impressos, mudando radicalmente a realidade do mercado editorial. Estas plataformas permitiram aos escritores vender os seus livros e vendê-los a nível mundial, sem necessitar da aprovação de uma editora e com impressão de boa qualidade.

Em 2023, No Top 400 dos livros mais vendidos na Amazon, 50% eram títulos de autores independentes.

Qualidade e Diversidade: O Fim do Estigma

Se lês regularmente, provavelmente já leste pelo menos um livro destes autores ou já ouviste falar deles: E.L. James, Andy Weir, Amanda Hocking, Colleen Hoover, Margaret Atwood, Lisa Genova, Hugh Howey, Rupi Kaur, Christopher Paolini, Michael J. Sullivan, Robert Kiyosaki e Rachel Caine. Estes são só alguns dos autores, que estão a publicar de forma independente ou híbrida, os títulos dos seus livros e estão a ser bem sucedidos nas suas carreiras.

A diversidade de géneros e o sucesso alcançado por estes autores junto do público, levou a que conceituados prémios literários, abraçassem os autores independentes e atribuíssem prémios a autores independentes. Esta é uma forma de reconhecer o talento dos autores e por um fim ao estigma da falta de qualidade das publicações independentes.

O Prémio Pulitzer, o British Book Awards e o Commonwealth Book Prize, entre outros, já estão abertos a autores que autopublicam as suas obras.

JD Kirk, vencedor do Kindle Storyteller Award de 2024 com o título “Stateside”, afirma que “nunca houve um momento melhor para ser um autor autopublicado. Tendo passado mais de 10 anos a escrever para algumas das maiores editoras do mundo, nunca estive tão bem criativa ou financeiramente como estive desde que comecei a autopublicar meu próprio trabalho”.

O Sucesso Internacional: Onde a Comunidade Floresce

As comunidades de autores independentes e os seus leitores, indicam que existe uma maior proximidade entre ambos, não só nas redes sociais, como em eventos que se tornaram bem sucedidos.

A Independent Author Book Expo nos EUA é um exemplo de modelo de feira de sucesso dedicada aos autores independentes, não apenas para venda de livros, mas contempla na agenda eventos de networking, workshops e painéis.

A Feira Transfronteiriça de Editores Independentes, tornou-se uma ponte cultural entre territórios e é já um evento literário de referência no norte da Catalunha e no sul da França, que visa destacar o trabalho de pequenas editoras que apostam em criação livre, diversidade literária e contacto direto com os leitores.

A Feira do livro de Londres, criou em paralelo com o evento, a Feira Alternativa do Livro, com uma semana de eventos editoriais e autores, com o objetivo de levar o mundo da publicação e da literatura a um público mais amplo, especialmente aspirantes a autores, escritores emergentes e leitores ávidos.

A Feira Alternativa do Livro faz parte de um ecossistema maior de feiras independentes no Reino Unido, com mais de 90 feiras regionais programadas, como a Northern Publishers Fair em Manchester; a City of Literature Publishing Fair em Norwich e a Small Publishers Fair em Londres.

A Feira do Livro de Paris e a Feira literária de Saint-Germain-des-Prés, em França, já têm também espaços dedicados aos autores independentes.

É fácil concluir que, quando feiras do livro reconhecidas mundialmente pela importância que têm para os autores e o seu público, abrem as portas aos autores independentes, isso significa que o público procura os livros autopublicados e o contacto com os seus autores.

O Poder do Encontro: O Público Quer o Autor

O público valoriza a interação direta entre leitor e criador, o toque pessoal, os autógrafos, as dedicatórias e as conversas sobre o processo criativo. Existe também um ambiente de descoberta, em que o leitor pode encontrar “a próxima grande voz” num ambiente menos saturado que as grandes livrarias.

Este contacto cria a apetência no público pela leitura e incentiva cada vez mais a proximidade entre autores e leitores, algo que não víamos no passado. A troca de impressões com os leitores, ajuda também os autores a terem uma interação mais próxima e a ouvirem as impressões e sugestões sobre as histórias e personagens dos livros.

As feiras são também um local de encontro com “caçadores de talentos” para pequenos editores ou agentes literários, que procuram autores que possam ser o próximo sucesso.

Vantagens e Impacto para Portugal

Em Portugal, as editoras independentes estão a fazer o seu caminho e a abrir portas para participar em eventos como as feiras do livro de Lisboa e do Porto, ainda que com algumas dificuldades. Capitais de distrito como Aveiro, Coimbra, Évora, Faro e Leiria, promovem também a participação de editores independentes e os autores locais.

A FLIFA (Festa do Livro de Independente da Freguesia de Arroios), realizou este ano a 4ª edição e assumiu em pleno a promoção de editoras independentes e livrarias, dando desta forma palco a quem não tem espaço nas grandes superfícies comerciais.

A Livrindie – Feira do Livro Independente em Arcos de Valdevez, realizou este ano a 3ª edição e contou com dezassete editoras independentes e dois autores em nome próprio.

Este tipo de eventos, é um incentivo ao gosto pela leitura e ajuda a desmistificar a figura do autor e tornar o processo de escrita palpável. A feira torna-se um evento de proximidade, em que o leitor local encontra o autor vizinho. Oferece também alternativas de preço e formato, que podem tornar o livro mais acessível.

A liberdade criativa, permite o surgimento de géneros e nichos que o mercado editorial tradicional ignora, como ficção especulativa portuguesa, poesia experimental, etc. Estes géneros considerados pouco rentáveis para as editoras tradicionais, encontram leitores fiéis no mercado da autopublicação.

Benefícios Económicos e Culturais para a Região

As regiões que promovem as feiras do livro, criam assim, uma marca cultural para a cidade/região anfitriã, posicionando-a como um centro de criatividade.

As feiras do livro, são também uma oportunidade para patrocinadores ligarem a sua marca ao apoio à cultura e à inovação, já que eventos locais permitem patrocínios de menor valor e com um público-alvo bem definido.

Os Municípios ao apoiarem este tipo de iniciativas, acabam também por beneficiar o turismo, a restauração e o comércio local, já que o público que frequenta o evento é sempre atraído pela região que o promove.

O Caminho a Seguir

Portugal precisa de mais iniciativas literárias locais, que apoiem os autores portugueses e os seus leitores. Neste artigo tem-se abordado as editoras independentes e os seus autores, mas existem no nosso país vários autores que autopublicam os seus livros e que precisam de quem lhes dê voz.

O autor que autopublica os seus livros, exerce outras atividades profissionais e não tem disponibilidade de tempo para participar em eventos literários de vários dias. Para além disso, o investimento que é necessário fazer na impressão de livros, inscrição no evento, viagens, estadia e refeições, fazem com que muitos autores criem outras formas de divulgação do seu trabalho.

Os autores portugueses que autopublicam os seus livros não desistem do seu sonho apesar de todas as dificuldades, escrevem os seus livros, fazem a divulgação junto do público, pagam a impressão dos seus livros, suportam todos os custos de marketing e promoção, fazem gestão de stock, enviam as suas encomendas, etc.

Apesar deste esforço ainda sofrem o estigma que “o autor que autopublica os seus livros não tem qualidade, pois se tivesse, alguma editora teria publicado os seus livros”! E eu pergunto, quantas editoras portuguesas publicam livros de autores portugueses? E as que publicam, qual é a percentagem de autores portugueses que vêm os seus títulos publicados comparativamente à percentagem de autores estrangeiros? Será que isto significa que não temos autores de qualidade, ou que as editoras têm que investir em autores que lhes tragam retorno financeiro imediato?

Por isso quando se pergunta onde estão os autores que não estão nestes eventos, não existe uma só resposta e sim várias condicionantes à sua participação que refletem a realidade do nosso mercado literário.

São necessárias mais iniciativas locais que tenham em consideração todos os fatores mencionados e que possam dar resposta à realidade dos autores portugueses, ajudando-os a aproximarem-se do seu público.

O estigma em relação ao autor independente, está a chegar ao fim em muitos países e está na altura de Portugal, começar a mudar mentalidades.

O Futuro Está nas Nossas Mãos

O movimento de autores independentes em Portugal não é uma moda passageira; é uma força estrutural que está a redefinir a forma como a literatura é criada, publicada e consumida. Temos uma comunidade vibrante, talentosa e pronta para interagir com o seu público. A única peça em falta neste quebra-cabeças literário é o espaço físico: a feira, o pavilhão, a praça onde estas histórias possam ganhar vida e encontrar os seus leitores.

Não é apenas uma feira do livro, é uma comunidade. Portugal tem o talento, só precisa do palco certo para o mostrar.

As vantagens são claras: aumento do gosto pela leitura através do contacto direto com os criadores, uma plataforma de descoberta de talentos única e um impacto económico positivo para os municípios e patrocinadores que apoiarem esta iniciativa.

O futuro da literatura portuguesa não será apenas ditado pelas grandes editoras; será construído, página a página, por quem tem a coragem de publicar o seu próprio livro.

A si, Autor Independente: Manifeste-se! Deixe nos comentários deste artigo onde gostaria que fosse a sua próxima feira e que tipo de eventos gostaria de ver.

A si, Potencial Patrocinador ou Organizador: O seu investimento não é em livros, é em cultura, inovação e comunidade.

“Se é autor, leitor, editor, organizador ou patrocinador, partilhe este artigo, deixe o seu comentário e ajude-nos a criar a próxima grande feira literária portuguesa. O livro que o país precisa pode estar a ser escrito agora mesmo. Dê-lhe um palco.”

 

Leia também o Artigo: Evolução do Mercado de Autores Independentes

Olá! 👋

Se gostaste deste artigo, subscreve a newsletter e recebe semanalmente os conteúdos do blog no teu email.

Não enviamos spam! Leia a nossa política de privacidade para mais informações.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.